Quando o campo fermenta inovação

Entre ciência, quintais produtivos e criatividade, Montanhas Capixabas transformam ingredientes locais em identidade, valor econômico e experiências que conectam o agro à cidade

Fotos: Leandro Fidelis

Nas Montanhas Capixabas, a cerveja artesanal deixou de ser apenas uma bebida para se tornar elo entre o agronegócio, a ciência, a inovação e o turismo de experiências. Integradas ao meio rural, muitas cervejarias da região têm apostado em ingredientes locais, frutas nativas, grãos produzidos por agricultores familiares e até microrganismos do próprio território para criar rótulos que expressam identidade, sustentabilidade e pertencimento.

Esse movimento ganha força especialmente em municípios como Domingos Martins e Venda Nova do Imigrante, a “Capital Nacional do Agroturismo”. Conhecida nacionalmente pela Festa da Polenta e pela Indicação Geográfica (IG) do socol, a cidade também se consolida como destino para apreciadores de cervejas artesanais, atraídos não apenas pela qualidade dos produtos, mas pela experiência de consumo no próprio ambiente rural. É o conceito de “quilômetro zero” aplicado ao copo.

Um exemplo dessa integração é a Jussara Beer, recém-lançada pelo Sítio dos Palmitos, de Domingos Martins. O empreendimento constrói a história com palmáceas desde 2000, sempre com foco na sustentabilidade. A partir de 2006, a propriedade passou a investir no agroturismo e, ao longo dos anos, ampliou a atuação com produtos exclusivos desenvolvidos a partir do fruto da juçara (Euterpe edulis), como picolés, sorvetes, queijo parmesão, iogurte funcional e, mais recentemente, a cerveja artesanal.

A Jussara Beer é uma Session IPA, com 4,8% de teor alcoólico, produzida em parceria com a cervejaria Kastel Hops, de Castelo, e comercializada exclusivamente no Sítio dos Palmitos. Segundo a sócia-proprietária do sítio, Cassia Batista, a polpa concentrada do fruto da juçara é obtida por meio de uma indústria parceira em Rio Novo do Sul, a “Capital Estadual da Juçara”, a partir de frutos cultivados no próprio plantio do sítio, fortalecendo uma cadeia curta, regional e rastreável.

*Fotos: Divulgação

Para o cervejeiro Flávio Pires, responsável pela criação da receita, a cerveja foi pensada como estratégia de comunicação do principal produto do empreendimento. “A ideia foi mostrar que o palmito também tem o ‘açaí juçara’. Escolhemos o estilo Session IPA por ser mais leve e refrescante, com um frutadinho que brinca no aroma e entrega uma experiência fácil e agradável”, explica.

Fermentações que traduzem território

Outro eixo desse ecossistema criativo é a experimentação fermentativa conduzida pelo biólogo Silas Andrade, especialista em Enologia e Viticultura, à frente do projeto Embaúbas Fermentações Selvagens e Naturais, desenvolvido em parceria com o sommelier de cerveja e tecnólogo cervejeiro Jhonata Zandonadi, na foto que abre esta reportagem. A proposta é resgatar bebidas ancestrais, reinterpretá-las com base científica e adaptá-las ao contexto brasileiro e capixaba.

Recentemente, a dupla criou uma releitura da chicha, bebida tradicional dos povos andinos, utilizando cerca de 40% de milho produzido em Venda Nova do Imigrante, além da adição de araçá-boi. Diferentemente da receita original, que leva apenas milho, a versão capixaba inclui um pequeno percentual de malte Pilsen para auxiliar no processo, resultando em uma cerveja leve, próxima ao estilo Catharina Sour (saiba mais no box abaixo), com cerca de 5% de álcool.

Outra criação é uma cerveja híbrida com saquê, conhecida como “Koji Ale”, elaborada com aproximadamente 40% de arroz produzido no Espírito Santo, fermentada com fungo koji e levedura de saquê. Mais alcoólica, chegando a 8%, a bebida passa por refermentação em garrafa antes de ser lançada ao público em março.

Para Silas, o objetivo vai além da inovação sensorial. “Em nossos experimentos buscamos unir ancestralidade e inovação na produção de bebidas únicas, que traduzem diversos aspectos do Brasil e do território capixaba. O terroir é literalmente o território aplicado ao copo, trazendo a expressão máxima do que ele nos possibilita”, afirma.

Segundo Silas, a valorização dos produtores locais gera impactos que extrapolam aroma e sabor. “Reafirmamos o giro da economia local, incentivamos o plantio de frutas nativas, a preservação de abelhas e criamos novas fontes de renda. Nossos fermentados criam pontes entre o campo e a cidade, conectando saberes e sabores que estavam se perdendo e agora são resgatados”, completa.

Essa aproximação entre agro, identidade e cerveja já vinha sendo explorada por outras produtoras da região. Em Venda Nova, a Piwo Cervejaria Rural construiu sua trajetória justamente a partir da integração com o meio rural. Um dos exemplos é a série “Brasilidades”, desenvolvida a partir da sazonalidade de frutas cultivadas no “Quintal da Piwo”, como pitanga e jabuticaba, utilizadas em releituras de estilos como a Catharina Sour. A proposta reforça o uso consciente dos insumos locais e amplia o diálogo entre agricultura familiar, criatividade cervejeira e experiência turística no campo.

Ciência, qualidade e identidade

O diálogo entre agro e inovação encontra respaldo técnico e científico em instituições de ensino e pesquisa. A engenheira de alimentos e nutricionista Mila Marques Gamba, doutora em Ciência e Tecnologia de Alimentos, explica que o uso de insumos locais tem impacto direto no perfil sensorial das cervejas artesanais. Frutas regionais, cereais como milho e arroz, cafés especiais e leveduras nativas influenciam aroma, sabor, corpo, acidez e complexidade, criando características dificilmente reproduzíveis em outros territórios.

“Quando trabalhamos com frutas regionais, cereais como milho e arroz ou mesmo microrganismos nativos, estamos adicionando camadas sensoriais que não são padronizadas. Isso cria cervejas com identidade própria, ligadas ao território, algo que não pode ser reproduzido em escala industrial em outros contextos”, afirma.

Esse conjunto (ambiente, matérias-primas, microbiota e práticas produtivas) contribui para a construção de um terroir cervejeiro capixaba, no qual a cerveja passa a expressar cultura, identidade e origem, e não apenas um estilo clássico replicável em qualquer lugar do mundo.

No Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), campus Venda Nova, o Laboratório de Zitologia (Zitolab) faz a ponte entre agricultura familiar, cervejarias artesanais e pesquisa científica. Coordenado pelo professor Genilson Paiva, o espaço funciona como uma nanocervejaria voltada ao ensino, pesquisa e extensão, permitindo testes piloto, análises físico-químicas, microbiológicas e sensoriais.

O laboratório apoia o desenvolvimento de produtos inovadores, avalia a aptidão tecnológica de insumos do campo e reduz riscos para pequenos produtores e cervejarias. Além disso, promove a formação de mão de obra qualificada, a transferência de conhecimento e a aproximação entre ciência e mercado.

Para o professor, o laboratório tem papel estratégico no fortalecimento da cadeia produtiva artesanal. “O Zitolab permite testar ingredientes do campo em escala piloto, avaliar qualidade, estabilidade e segurança antes que o produto vá para o mercado. Isso reduz riscos, valoriza a agricultura familiar e aproxima a pesquisa científica da realidade produtiva da região”, explica.

 

Sabor autoral
Há dez anos, o Brasil cravou seu nome no mapa cervejeiro mundial com a Catharina Sour, primeiro estilo de cerveja 100% brasileiro. Ácida, refrescante, de baixo amargor e marcada pelo uso criativo de frutas tropicais, ela traduz o clima, o território e o paladar do país. Oficializada no BJCP (Beer Judge Certification Program) em 2020, hoje é produzida por mais de 300 cervejarias, exportada para diversos países e reconhecida em concursos internacionais, prova de que a criatividade brasileira também faz escola na cerveja.

Turismo, consumo e futuro

E os resultados dessa integração começam a aparecer. O Espírito Santo conta com cerca de 82 cervejarias registradas, muitas delas concentradas na região Serrana, que se consolida como polo de turismo rural e cervejeiro. Premiações nacionais e internacionais ajudam a validar a qualidade dos rótulos, enquanto o consumo passa a ser orientado por experiência, origem e propósito.

Para quem vem da cidade grande, a diferença é perceptível. “Cara, é incrível! Quando eu provo uma cerveja feita com ingredientes locais, sinto que a experiência fica mais autêntica. É como se a cerveja tivesse um pedaço da cultura, dos sabores e aromas locais”, relata Luiz Giglio, síndico profissional carioca que frequenta a região durante as férias.

Para o vendedor de laticínios Michael Márcio Pereira, de Belo Horizonte, o contato com as cervejas capixabas veio antes mesmo da visita às Montanhas Capixabas. “Meu primeiro contato foi com a Piwo em um festival aqui em BH, um evento muito legal, onde só entra cerveja diferenciada. Só de estar ali você já passa a enxergar a cervejaria com outros olhos. Lembro que tomei uma cerveja feita com café de Venda Nova que era f*!”, relembra.

Ele conta que esteve apenas uma vez em Venda Nova do Imigrante, durante outro festival, experiência que classifica como marcante. “Foi um evento sensacional. Desde então continuo comprando cervejas da região via WhatsApp. Modéstia à parte, aqui na Grande BH tem muita coisa boa, então, para sair daqui e ir parar em um evento no Espírito Santo, é porque os capixabas também estão fazendo cervejas muito boas, mandando muito bem”, completa.

Apesar do cenário promissor, o setor enfrenta desafios estruturais, como a dependência de insumos importados, a alta carga tributária, a concorrência com grandes cervejarias e questões ligadas à sucessão familiar e à mão de obra no campo. Na avaliação do professor Genilson Paiva (Ifes), esses fatores podem comprometer a sustentabilidade de longo prazo da agricultura familiar como fornecedora de insumos para a agroindústria artesanal.

Por outro lado, políticas públicas recentes ampliam as oportunidades. No primeiro semestre de 2025, o Governo do Espírito Santo, por meio do Fundo de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes), realizou o maior investimento da história em Ciência, Tecnologia e Inovação, destinando mais de R$ 200 milhões em editais que ampliam o acesso de empreendedores e pesquisadores fora da região metropolitana, cita o professor.

Outro marco é a aprovação da Política Nacional de Incentivo à Produção de Lúpulo de Qualidade, que pode reduzir a dependência de importações e fomentar a integração da cadeia produtiva. As Montanhas Capixabas, por suas condições ambientais, despontam como uma das mais promissoras para o cultivo da cultura no estado.

Cerveja reaproveita dejetos suínos
Pesquisadores da Embrapa desenvolveram uma cerveja artesanal produzida com água reciclada a partir de dejetos da suinocultura, após mais de dez anos de estudos. O projeto piloto, criado em Concórdia (SC), une redução do consumo hídrico na produção cervejeira e soluções sustentáveis para o setor de suínos. A água passa por um rigoroso processo de tratamento até atingir padrão de potabilidade e foi usada na produção de 40 litros da bebida, degustada em eventos científicos em 2024 e 2025. A expectativa é avançar para a fase de comercialização a partir de 2026.

Por Leandro Fidelis/Colaborou Tiago Delpupo Mognhol(Conexão Safra)

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