
O início do ano letivo é um momento propício para que a escola reflita sobre suas práticas, seus modos de organização e as relações que estabelece em seu cotidiano. Na Educação Especial, pensada a partir de uma perspectiva inclusiva, esse período ganha centralidade, pois é nele que se evidenciam decisões pedagógicas que expressam o tipo de escola que vem sendo construída. A partir das contribuições de Norbert Elias (1994), a escola pode ser compreendida como um espaço relacional, no qual os sujeitos se constituem nas interações que estabelecem entre si. Como afirma o autor: “É a essa rede de funções que as pessoas desempenham umas em relação às outras e a ela que chamamos de sociedade” (ELIAS, 1994, p. 23). Sob essa compreensão, educadores, estudantes, famílias, gestores e políticas públicas participam de um mesma teia social, no qual as ações se articulam e produzem sentidos coletivos para a inclusão.
Por isso, o início das aulas nos convidam a refletir: Quem são os sujeitos que ocupam a escola? Como são reconhecidos dentro dela?No campo da Educação Especial, essa reflexão pode ser compreendida como uma estratégia que qualifica as práticas pedagógicas e orienta decisões mais coerentes com a diversidade presente na escola. Ainda é recorrente a tendência de reduzir o estudante ao laudo que o acompanha. Quando existente, o laudo deve cumprir a função de apoio, sem jamais anteceder o encontro humano. Nesse contexto, torna-se fundamental discutir a acessibilidade atitudinal. Mais do que rampas ou recursos materiais, são as crenças, os comportamentos e as posturas cotidianas que, muitas vezes, dificultam ou impedem a participação plena dos estudantes. Quando o olhar se fixa no laudo ou na habilidade que ainda não foi trabalhada e consolidada, a exclusão se produz de forma silenciosa.
Muitos educadores terão, neste início de ano, o primeiro contato com seus estudantes; outros darão continuidade a processos já iniciados. Em ambos os casos, é preciso afirmar: o começo é, muitas vezes, desafiador. A inclusão não se revela de imediato, não se consolida no primeiro ou no segundo contato. Ela se constrói no tempo, na insistência pedagógica e na disposição para aprender com o outro. Aos educadores que, em 2025, tentaram fazer a educação inclusiva acontecer no cotidiano escolar, é preciso dizer com clareza: houve avanços, houve escolhas corajosas e houve práticas que deram certo. Reconhecer esse percurso é fundamental, porque a inclusão não se constrói do zero a cada ano. Por isso, contamos com vocês em 2026 não apenas para continuar, mas também para compartilhar as experiências que foram assertivas, os caminhos que produziram vínculo, aprendizagem e participação. Tornar visível o que deu certo também é um ato formativo.Reconhecer avanços não significa afirmar que todos os desafios foram superados. Ainda há muito a ser feito, revisto e aprimorado no campo da Educação Especial, especialmente no que diz respeito às práticas pedagógicas, às condições de trabalho e à garantia efetiva de participação e aprendizagem para todos os estudantes.
Para os educadores que vivenciam, neste momento, o primeiro contato com a educação inclusiva, é importante reconhecer que o início do percurso pode provocar inseguranças, dúvidas e até receio de errar e isso integra o próprio processo formativo. A escola se constitui como um espaço coletivo, no qual a construção pedagógica não acontece de forma isolada. Professores de Educação Especial, profissionais de apoio e equipes pedagógicas fazem parte desse cotidiano e contribuem, por meio da escuta, da orientação e do trabalho compartilhado, para o fortalecimento das práticas. A inclusão não se sustenta em respostas prontas, mas na abertura para o diálogo, na aprendizagem conjunta e na busca contínua por caminhos possíveis. É nesse exercício de interdependências que se constroem apoios, se consolidam práticas pedagógicas e se ampliam as condições de participação dos estudantes.
É no cotidiano da escola que se produzem os movimentos mais significativos: práticas construídas coletivamente, ajustes pedagógicos, tentativas, acertos e estratégias que se mostram possíveis na Educação Especial em uma perspectiva inclusiva. Nada do que é vivido nesse espaço é irrelevante. Quando essas experiências são observadas, registradas, compartilhadas e sistematizadas, deixam de ser apenas vivências isoladas e passam a constituir dados, argumentos e saberes sobre a realidade educacional. Esses elementos têm potência para tensionar, qualificar e orientar a construção de políticas públicas mais coerentes com a diversidade humana. Inserida nessa teia de interdependências, a escola não atua apenas como executora de políticas: ela também participa ativamente de sua produção.
Dentro dessa rede de interdependências que constitui a escola, conforme nos ajuda a compreender Norbert Elias (1994), a família ocupa um lugar fundamental. É ela quem estabelece o primeiro contato com os estudantes e traz observações, experiências, saberes e leituras que se produzem fora do espaço escolar, mas que atravessam diretamente os processos educativos. Ao integrar essa configuração, a família contribui para dar continuidade, sentido e profundidade aos trabalhos iniciados na escola, fortalecendo as mediações pedagógicas e ampliando as possibilidades de desenvolvimento e aprendizagem.Que 2026 seja o ano em que a escola pública escolha a constância em vez da pressa, o coletivo em vez do isolamento. Porque educar é sempre um ato coletivo e profundamente político.
__________________________

CONHECENDO UM POUCO DA AUTORA
MICHELI FONTES É CAPIXABA E PROFESSORA DE EDUCAÇÃO ESPECIAL. LICENCIADA EM PEDAGOGIA, CONSTRUIU SUA TRAJETÓRIA NA ESCOLA PÚBLICA, ONDE ATUA NO ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO. SUA APROXIMAÇÃO COM A EDUCAÇÃO ESPECIAL TEVE INÍCIO NA ASSOCIAÇÃO DE PAIS E AMIGOS DOS EXCEPCIONAIS (APAE) , EXPERIÊNCIA QUE MARCOU SEU PERCURSO E CONTRIBUIU PARA O OLHAR SENSÍVEL QUE ORIENTA SUA PRÁTICA.
DESDE CEDO, ENCONTROU NA EDUCAÇÃO E NA ESCRITA FORMAS DE EXPRESSAR VIVÊNCIAS E APRENDIZAGENS, TRANSFORMANDO ENCONTROS E EXPERIÊNCIAS EM REFLEXÕES COMPROMETIDAS COM A INCLUSÃO. SUA ATUAÇÃO É MARCADA PELO TRABALHO COLABORATIVO, PELA ESCUTA SENSÍVEL E PELA DEFESA DE UMA ESCOLA CONSTRUÍDA EM REDE, NA QUAL NINGUÉM CAMINHA SOZINHO.ACREDITA NA EDUCAÇÃO COMO PROCESSO COLETIVO E NA FORÇA DAS INTERDEPENDÊNCIAS COMO CAMINHO PARA UMA ESCOLA MAIS JUSTA, SENSÍVEL E CONSTRUÍDA NO ENCONTRO.
INFORMAÇÕES DE CONTATO:
Instagram: @micheliffontes E-mail: micheliffontes@gmail.com




