
“-Espera chover… e começa de novo. Então foi exatamente isso que eu fiz”. Foi entre pólen e o zumbido das abelhas que Juliano Cordeiro deu uma grande virada em sua trajetória profissional. O apicultor e consultor de São Domingos do Norte (ES) já enfrentou desde dúvidas na transição de carreira a uma seca severa que dizimou seus enxames, mas entendeu que o universo da apicultura seria o grande movimento da sua vida.
“Em 2013, meu caminho cruzou com a apicultura. Tudo começou por puro companheirismo. Um grande amigo precisava de ajuda para resgatar um enxame. O cenário desse primeiro contato não poderia ser mais simbólico da nossa região. Fomos até uma lavoura de café, onde as abelhas haviam se instalado dentro de um cupinzeiro. Eu nunca tinha lidado com aquilo, mas a curiosidade e a vontade de ajudar falaram mais alto. O que era para ser um favor no fim de semana acabou se tornando o ponto de partida para uma paixão que mudou a minha vida”, relembra o apicultor.
A atividade apícola reúne características que vão muito além da sustentabilidade ambiental e da preservação da biodiversidade. Nos últimos anos, vem se consolidando como uma alternativa de diversificação nas propriedades rurais, onde pode ser considerada uma fonte direta de geração de renda, em um negócio com dupla aptidão: o valor gerado pelos enxames vai além dos limites da própria colmeia.
Enquanto produzem mel, própolis, cera e geleia real, as abelhas realizam outro trabalho silencioso: segundo estudo pioneiro do IBGE publicado em 2025, a polinização animal contribui, em média, com 16,14% do valor da produção agrícola do Brasil, podendo chegar a 25%. O levantamento considera dados de 1981 a 2023 e analisou 89 itens da agricultura e extrativismo vegetal, dos quais 48,3% dependem, em algum grau, da polinização animal. Entre as culturas permanentes, como café e frutas, 38,7% da contribuição vem da polinização, relacionando-se diretamente ao aumento de produtividade e qualidade.
A trajetória de Juliano Abelha, como é conhecido, contribui para demonstrar a escalada de ascensão do segmento. Em 2022, sua esposa, conhecida como Kátia Abelhas, se juntou ao negócio. Vieram a criação de conteúdos, os cursos de aperfeiçoamento e a diversificação na atuação, que inclui a meliponicultura. “No primeiro ano trabalhando juntos, crescemos 100%; no ano seguinte crescemos mais 50%, e, aos poucos, pessoas de todo o país passaram a conhecer o nosso trabalho. Logo começaram os convites para palestras, consultorias e eventos fora do estado. Em pouco tempo nos tornamos referência, sendo convidados por grandes eventos e empresas para compartilhar conhecimento e prestar serviços”, acrescenta. Atualmente, o foco do casal está na estruturação de um CNPJ voltado para uma gama diversificada de produtos e serviços. Em paralelo a uma agroindústria, está sendo finalizada a criação de um instituto de desenvolvimento e pesquisa.
Os números no estado do Espírito Santo comprovam o potencial econômico percebido pelos empreendedores. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2024, a colheita de mel no estado alcançou 846 mil quilos, um aumento de 55% em relação a 2016, quando foi registrado um volume de 544 mil quilos. A movimentação financeira mais que dobrou, passando de R$ 6,2 milhões para R$ 12,3 milhões.
Os polos produtivos trazem destaque para o município de Aracruz, que figura no topo do ranking, seguido por Fundão e Marechal Floriano. O cenário geral registra incremento na produção, avanços tecnológicos e o surgimento de novas iniciativas ligadas ao setor. Apicultores também têm investido em produtos derivados e mercados específicos. O aumento da demanda por produtos naturais e com origem confiável também contribui para a expansão do segmento. Esse movimento ajuda a explicar por que a história de Juliano não é um caso isolado. O cenário de expansão cria condições para que empreendimentos locais ultrapassem as fronteiras e conquistem novos mercados, inclusive em escala nacional.

Do Oiapoque ao Chuí: marca capixaba nasceu de uma única colmeia e conquistou o país
A expressão popular que simboliza a extensão territorial ajuda a dimensionar o caminho percorrido pela Melfort. Fundada em São Gabriel da Palha (ES), a empresa está presente em todos os estados do país. A trajetória começou de forma modesta, quando a família decidiu instalar uma colmeia no quintal de casa e acabou encontrando uma nova alternativa econômica.
Relembrando os passos dados quatro décadas atrás, a fundadora, Elaine Oto Malze, conta que a experiência com os primeiros favos foi tão positiva, que seu esposo, Fernando Malze, decidiu aumentar o número de colmeias. “Daquela caixinha fomos para duas, para dez, para cinquenta. Conforme os enxames aumentavam, não dávamos mais conta de consumir e percebemos que aquilo poderia se transformar em uma nova fonte de renda”, recorda.
O mel era envasado de forma artesanal e vendido de porta em porta nas cidades do norte e noroeste capixaba. “Peguei aquele mel clarinho na garrafa e saí para vender. Colocava os litros que coubessem em uma bolsa e carregava nos braços. Depois de um tempo, começamos a extrair própolis, que ainda era novidade naquela época. O que eu levava, vendia”, conta.
A boa aceitação incentivou a família a diversificar as vendas, adicionando um composto feito à base de mel e ervas, que rapidamente conquistou espaço entre os consumidores. O forte potencial econômico impulsionou os primeiros investimentos, a criação da marca e a implantação da estrutura industrial. Ao longo desse processo, a empresa estruturou uma operação submetida aos controles do Serviço de Inspeção Federal (SIF), etapa importante na profissionalização do empreendimento. Além da linha apícola, o catálogo passou a incluir compostos naturais e, mais recentemente, suplementação alimentar. O crescimento da operação trouxe a exigência de aumentar os estoques de matéria-prima, levando a empresa a buscar fornecedores em diferentes regiões, inclusive fora do estado.
Do litoral às montanhas, a diversidade favorece uma vocação em expansão

Entre ecossistemas naturais e grandes áreas cultivadas, a paisagem capixaba ajuda a explicar sua vocação apícola. Da vegetação nativa às lavouras de café, macadâmia, laranja, abacate, aroeira e outras culturas agrícolas, o estado reúne condições favoráveis para a produção de diferentes tipos de mel e derivados ao longo de todo o ano.
Segundo o extensionista do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), Alex Fabian Rabelo Teixeira, a combinação entre diversidade vegetal e variações geográficas cria um ambiente especialmente propício no estado. “O Espírito Santo possui um potencial extraordinário devido à sua paisagem, com floradas em épocas diferentes do ano e espécies tanto nativas quanto cultivadas. Além disso, temos uma marcante diferença de altitude. Em menos de 100 quilômetros, saímos do litoral e chegamos às montanhas. Isso resulta em uma paisagem dinâmica, o que por si só já é importante para as abelhas”, explica.
Essa alternância amplia as possibilidades de manejo e favorece o aproveitamento de diferentes períodos para coleta de recursos florais. Para o especialista, as possibilidades alcançam itens de maior valor agregado e que exigem maior especialização técnica. “Existe potencial para todos os produtos apícolas. Um apicultor dedicado consegue produzir geleia real e própolis, inclusive própolis vermelha”, afirma.
O quadro positivo, no entanto, ainda esbarra em gargalos como a ausência de programas de acompanhamento permanentes e a existência de lacunas na interlocução dentro da cadeia produtiva. Para o extensionista, a conscientização sobre o papel das abelhas e a divulgação dos produtos apícolas também são fatores decisivos para o avanço do setor.
Não obstante os desafios, o volume produzido no estado deve chegar a mil toneladas por ano até 2032, segundo a Secretaria de Agricultura do Espírito Santo (Seag), consolidando uma trajetória positiva, impulsionada pela profissionalização dos produtores, diversificação de produtos e ampliação do consumo.
Da realidade consolidada às expectativas futuras, as colmeias capixabas vêm produzindo muito mais do que mel: elas ajudam a polinizar cultivos, movimentar negócios e transformar pequenas iniciativas familiares em empreendimentos de alcance nacional. E para quem investiu tempo, recursos e uma dose de paixão nesse empreendimento, os resultados continuam tendo o mesmo sabor da origem. Assim como para Elaine, muito além dos números, o que importa é que a essência do negócio permaneça: “O mel faz parte da nossa história. Sempre vai fazer.”
Fonte: Alessandra Piassarollo e Paula Pignaton | Lumi Comunicação Estratégica.




